Encontrando estações DX com sintonizador de FM

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O que será que rola nas estações de FM do Caribe? E nos FMs dos Estados Unidos? Aposto que esta curiosidade já de uma ou de outra maneira nos atormentou. E para termos respostas sobre estas e outras perguntas, pesquisei durante quatro anos as estações de frequência modulada metidas nas entrelinhas do chiado de ruído branco do sintonizador. O que descobri foi deslumbrante, abrindo um espaço novo de lazer muito didático e, o que é mais importante, comportando-se de modo particular dependendo de onde moramos, diferenciando-se assim por completo da prática de DX em ondas curtas.

O que é DX em FM

DX, no modo geral em rádio frequência, significa desconhecido (X) distante (D). Em FM, pode-se considerar como emissora DX captada, toda aquela que se situe além de 100km em linha reta entre o transmissor e o receptor. Já agora com os transmissores novos existentes em algumas emissoras, que irrad

iam 100kW de

potência, este limite é em torno de 150km. Via de regra, ficamos com o limite de 100km e as emissoras de captação normal, como separação entre emissoras comuns e emissores DX.

Como a faixa de frequência FM está compreendida no meio da faixa de TV, esta também atravessa a Ionosfera ao ser irradiada, lançando suas ondas ao espaço, não resultando em retorno à Terra da maneira como funciona com as ondas curtas. Porém, de alguma maneira, há épocas do ano (da primav

era ao outono) em que as ondas do FM se “canalizam” através de camadas da atmosfera (Figura 1) percorrendo distâncias muito além da linha do horizonte e possíveis de serem captadas por um sintonizador comum.

Figura 1 - Canalização das ondas de FM.
Figura 1 – Canalização das ondas de FM.

Esta “canalização” ocorre com sua maior intensidade quando as ondas emitidas caminham na penumbra do sol poente (Figura 2).

 

Histórico

Quando as emissoras ainda operavam com potência reduzida, dificilmente ultrapassando os 10kW, na região onde moro, as estações de Porto Alegre eram captadas com bastante chiado. Era completamente impossível gravar-se algum programa com fidelidade. Como ao redor de nossa cidade (São Sebastião do Caí – RS) há morros e ela fica quase ao nível do mar (30 metros acima), éramos obrigados – e ainda somos – a usar antenas de FM externas. A primeira antena que adquiri, era uma comum de televisão de 5 elementos e, como ainda aparecia um pouco de chiado ao ouvir minha emissora predileta, acrescentei na descida um booster de TV. Ficou ótimo! Gravei um monte de fitas que ainda hoje em dia ouço, mesmo tendo deixado de existir esta mesma estação de FM.

Ocorre que naquela época de leis militares não haviam novas concessões de emissoras e só uma meia dúzia de FMs operava. Para caminhar de uma estação à outra, havia um espaço enorme de chiado livre do dial. Em certas noites ao passar com o ponteiro pelos 100MHz, entrava uma emissora com relativa potência e excelente qualidade sonora, a qual fazia os anúncios em inglês. Passei por esta mesma estação numa noite de primavera de 1983 e a mesma dizia: “We sell our original whisky in best prices in the “S””. E assim por diante. Fiquei ouvindo a emissora durante várias noites como se fosse daqui, somente oscilando levemente o som. Seu estilo de transmissão era agradável, apresentando música ambiental. Inclusive, eventualmente executavam alguma música brasileira. Todos os dias, lá pelas 23 horas deixava de captar esta mesma FM, sumindo em poucos segundos, como se nunca tivesse existido naquele espaço. Levei bastante tempo para descobrir no meio de todos os “papos” a origem da transmissão da FM, até que um dia descobri o seguinte no meio da gravação: “NOW, HEARE THE ONE HUNDRED FM STEREO, IN THE “S” PORT OF SPAIN.”. Engoli orgulhoso pela descoberta feita, pois sabia que Port of Spain é a capital das ilhas TRINIDAD E TOBAGO ao norte das Guianas. O “S” a que se referem nos dizeres se refere a “south” (sul), já que a capital fica em Trinidad, ilha mais ao sul. Todo este acontecimento me marcou com tamanha veemência (captara uma emissora de FM além de 5000km de distância), que decidi dedicar um estudo às emissoras não locais que o meu sintonizador captava.

Não demorou muito para que eu adquirisse duas antenas idênticas de 8 elementos (enormes) especiais para FM. A distribuição delas ficou assim: de norte a sul (RS – Uruguai), a antena de 5 elementos. De sul a norte (RS – SP) e de leste a oeste (RS – Chile) as de 8 elementos. De oeste a leste não dirigi antena, pois existe aqui um morro bastante acentuado nesta direção e temos em seguida mais de 8 mil quilômetros de Oceano Atlântico.

Fiz descidas separadas para todas as antenas a fim de poder selecionar a direção que desejo pesquisar. Os horizontes se abriram. Consegui agrupar mais de cento e trinta emissoras de FM, sendo as de captação local em torno de trinta. As outras todas foram “caçadas” e catalogadas uma após a outra. Note o leitor, que se preenchermos todos os espaços disponíveis para emissoras de FM do 88 ao 108, colocaremos 100 emissoras. É possível encontrarmos mais emissoras, porque captamos várias (às vezes até 4), no mesmo ponto do dial, somente mudando a direção da antena.

 

Curiosidades

O estéreo geralmente entra com a intermitência na sintonia das emissoras DX. Outra peculiaridade do modo FM de transmissão é que em cada cidade as emissoras captadas são outras. Assim, as emissoras que consigo captar aqui não serão as mesmas que o leitor irá captar em sua cidade. Em ondas curtas, todo mundo capta a mesma coisa no mesmo ponto do dial. Em FM, todo mundo capta emissoras diferentes. Este sistema aleatório de captação, me premiou com a sintonia de 69 emissoras gaúchas. Fora do Rio Grande do Sul, captei emissoras de Santa Catarina, do Uruguai, de Pernambuco, do Sergipe, da Bahia e do Peru. Além destas, registrei ainda uma enormidade de emissoras do Caribe e algumas dos Estados Unidos. A mais distante que consegui registrar é dos Estados Unidos, cidade de São Francisco (Califórnia). Dista daqui em linha reta 10000km.

Outra curiosidade (já falei um pouco a respeito anteriormente), é se captar emissoras diferentes no mesmo ponto do dial, dependendo unicamente do dia, da hora e da direção da antena. Pela lista de emissoras que elaborei, podemos ver que várias emissoras ocupam o mesmo ponto no dial. A parte mais saturada do FM é entre os 94MHz e os 100MHz. Às vezes, enquanto se ouve uma emissora, esta começa a ser sobreposta por outra até que a primeira saia completamente do ar, deixando a segunda emitindo em seu lugar. E isto torna este lazer diletante: a cada dia diferente, pode-se captar emissora diferente no lugar da que captara e catalogara no dia anterior.

A maior luta neste fascinante passatempo é para se descobrir o nome da emissora que está transmitindo e, principalmente, de onde ela está lançando seu sinal. Geralmente as FMs adotam a frequência de transmissão como um “apelido” para si. Ou seja; em vez de dizerem, por exemplo: “Aqui, na Cidade FM!” – Dizem: “Aqui, na Noventa e dois e um!” – E este “apelido”, pelo que tenho notado é universal. Em todos os lugares é adotado. Agora, para dizerem sua identificação por completo, por exemplo: “Aqui, ZYD581, 92.1, Cidade FM Estéreo, Porto Alegre, Rio Grande do Sul” – é quase impossível. Somente se identificam por completo as emissoras de classe especial. A artimanha para pegar a identificação das outras, consiste em se sintonizá-las após término de programa de rede nacional. É infalível, sempre se identificam. Mas, como os programadores das FMs acham que a emissão jamais irá além do raio de visão da sua torre transmissora, é fácil entender o anonimato das FMs. E, por este meu trabalho, acredito na necessidade de uma reavaliação de todo o conceito de radiofonia em frequência modulada. Isto implica num rearranjo desde o momento da concessão do respectivo canal de transmissão (aqui já se capta em alguns pontos do dial, emissoras que se interferem entre si), até o estilo dos programas, já que a qualidade técnica em muitas emissoras já se compara às AMs.

Em quatro anos de pesquisa ficaram faltando dados de várias emissoras. De algumas delas foram preenchidas mais de cinco fitas e em nenhum momento foi possível encontrar o rastro de sua identidade.

A seguir, podemos apreciar uma amostra do que foi possível captar aqui.

DIAL DIST. Km EMISSORA CIDADE ESTADO PAÍS
88.5 6800 Revelación Guayama Guayama Porto Rico
88.7 2600 Delmar Aracaju Sergipe Brasil
88.9 3100 Jangadeiro Fortaleza Ceará Brasil
89.5 2970 Goiana Goiana Pernambuco Brasil
89.7 9500 K.I.I.P. Age Los Angeles Califórnia USA
89.9 6100 I.C. Fort de France Martinica Martinica
89.9 3160 ( ) Lima Lima Peru
90.1 6100 Nacionel Fort de France Martinica Martinica
90.1 2200 Globo Salvador Bahia Brasil
90.5 6800 W.I.V.A Carolina Bayamon Porto Rico
90.7 10000 B.B.S. San Francisco Califórnia USA
91.1 2940 Nazaré Nazaré da Mata Pernambuco Brasil
91.3 2100 Itaparica Itaparica (?) Bahia Brasil
91.7 420 Verde Vale Videira Santa Catarina Brasil
93.5 2600 Atalaia Aracaju Sergipe Brasil
94.3 7000 Jam Radio Kingston Jamaica Jamaica
95.1 5600 Nine Five Port of Spain Trinidad and Tobago Trinidad and Tobago
95.7 390 Atlântida Lages Santa Catarina Brasil
96.1 9700 Voice of The Island West Springfield Massachusets USA
96.3 360 Rádio 96 Concórdia Santa Catarina Brasil
97.9 9700 T ON T Saint Thomas Ontário Canadá
98.9 5600 Sixteen Port of Spain Trinidad and Tobago Trinidad and Tobago
99.5 750 Emissor del Sol Montevidéu Montevidéu Uruguai
100.1 5600 One Hundred Port of Spain Trinidad and Tobago Trinidad and Tobago
101.9 390 Verdes Campos Lages Santa Catarina Brasil
102.7 6800 The Voice of San Martin San Martin S. Martin Ilhas Virgens
102.9 6800 Triodia (?) Porto Rico
104.9 9500 ( ) Mineapolis Minesotta USA
105.5 360 Maguaya Rio Branco Uruguai

 

Como praticar DX em FM

É óbvio que não basta um simples rádio portátil de FM para a prática desta modalidade de lazer. Para deixar o leitor a par, digo sem constrangimento que somente empreguei aparelhagem nacional nesta pesquisa, a saber: as antenas são três de marca Biasia, sendo a de 5 elementos modelo Geminni (para todos os canais de TV) e as de 8 elementos modelo Yagi especialmente dimensionadas para os canais de FM. Emprego também, um booster Thevear modelo 823-4ESuper instalado junto ao sintonizador, pois se separar as “caixinhas”, a tendência é ocorrer uma multiplicação do ponto de sintonia de emissoras mais fortes em várias partes do dial, tornando difícil saber se a emissora DX captada não é o “espelho” de uma local.

Como sintonizador principal foi empregado um CCE, modelo ST-4040, o qual possui entrada a mosfet BFR34. Testei neste lugar vários tipos de mosfets diferentes, sendo que o melhor operou (e ainda está no mesmo lugar), foi o BF982. Ele não deixa passar tanta “fritura” de fundo na sintonia de emissoras distantes. Auxiliando o CCE enquanto gravava alguma estação, empreguei nas buscas, um receiver modelo Compact HI-FI 2000 da Telefunken, com entrada BF200 (transistor).

O único detalhe realmente importante no emprego do tipo de sintonizador é o comprimento do curso de escala: quanto mais comprido, melhor. Este detalhe é deveras importante porque as emissoras DX que podemos pesquisar se situam entre as nossas estações costumeiras. Sendo assim, se o cursor do dial é mais longo, ele mais facilmente irá “separar” uma estação da outra. Ambos os sintonizadores que empreguei possuem um fundo de escala além de 20cm o que já é bom. Testei vários aparelhos como receivers e três-em-um e todos demonstraram condições para a prática de DX. Inclusive tornei bem mais longo o cursor do dial de um rádio de carro TKR e o mesmo demonstrou boa qualidade na captação de FMs distantes. O que realmente é necessário, se restringe a uma boa antena que pode ser posicionada em todas as direções. O booster é importante também melhorando bastante o sinal, porém, não é imprescindível.

É bom gravarmos os papos das emissoras para futura conferência ou comprovação do que foi dito. Para anotarmos os dados, o ideal é termos à mão folhas de almaço quadriculado, nas quais é bom anotarmos: – indicação de sintonia; – a intensidade do sinal (quando o sintonizador tiver ponteiro indicativo); – o nome da emissora; – a cidade de origem da transmissão; – classificá-la como normal, eventual, ou DX; – o estado; o país e a língua falada; – a distância aproximada em km em linha reta; – o estilo dos programas irradiados; – se a captação é em mono, estéreo ou intermitente; – a data, hora local e a numeração do conta-giros da gravação efetuada (para futura conferência) e um espaço para comentários.

E agora, mãos à obra! Garanto que haverá uma enorme satisfação pessoal neste lazer diferente, quando seus amigos os visitarem e você tiver o registro de alguma FM distante para tocar em seu gravador. Digo isto porque a experiência me provou que só acredita quem ouve e a estupefação diante desta realidade é premente. Fora isto, o que você irá aprender devido ao esforço empregado na compreensão de outras línguas, nenhum cursinho desenvolverá tão ligeiro em sua imaginação.

Para captar alguma emissora distante, primeiro é preciso encontrá-la. E se, ao passar o dial de ponta a ponta bem devagar não tiver encontrado nada, não desista! Daqui a três minutos, ou duas horas, ou uma semana você irá impreterivelmente “caçar” alguma coisa. Será bem mais simples de encontrar emissoras se você fizer os testes em zona rural ou locais afastados de fontes de interferência.

Nas Figuras 03, 04 e 05 pode-se verificar alguns registros feitos na época das pesquisas.

Figura 3 - Registro de emissoras 1.
Figura 3 – Registro de emissoras 1.
Figura 4 - Registro de emissoras 2.
Figura 4 – Registro de emissoras 2.
Figura 5 - Registro de emissoras 3.
Figura 5 – Registro de emissoras 3.

 

Conclusão

Para tornar este trabalho mais sério, a gravação das emissoras DX que se identificaram pode ser apreciada no player da plataforma. Aperte o play e confira as mais diversas emissoras capturadas na época. O que realmente me apraz é saber estar oportunizando uma forma gostosa, didática e inteligente de lazer. Afinal, é impossível não nos deslocarmos para o local de origem da transmissão, mesmo que mentalmente, ao ouvirmos suas músicas, seus locutores e seus noticiosos. No mínimo, isto é bem melhor do que ver o Rambo ensanguentando nossas telas de TV.

 

Autor: Eng. Wagner Rambo

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